“A importância da solidariedade e do trabalho voluntário no desenvolvimento social e pessoal dos jovens” - Bernardino Silva

É com grande alegria que o Blog "Mundo da Educação" apresenta uma entrevista exclusiva com Bernardino Silva, um destacado humanitário. Licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa, Bernardino possui uma vasta experiência em projetos voltados para o bem social e humanitário.

Durante o período de 2008 a 2011, Bernardino Silva desempenhou um papel crucial como Coordenador da OIKOS na Região Norte, contribuindo significativamente para o desenvolvimento e implementação de projetos de solidariedade  de grande relevância. A sua dedicação ao serviço também se manifestou ao longo de quase duas décadas como Presidente da Comissão Justiça e Paz de Braga, marcando presença ativa em questões sociais fundamentais.

Além do seu compromisso a nível nacional, Bernardino representou Portugal na Comissão Europeia (COMECE) para os Dias Sociais Europeus, reforçando o seu papel como defensor incansável de causas humanitárias. A sua experiência prática no voluntariado internacional é notável, colaborando com organizações de renome como ACNUR, Cruz Vermelha Internacional, Médicos do Mundo e Cáritas Internacional.

Entre as suas realizações destacadas, encontra-se o projeto "Um Olhar a Revelar", desenvolvido no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, Brasil. Bernardino Silva também é autor do livro "Lugares e Instantes", que contou com um prefácio do atual Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres.
Atualmente, Bernardino assume a coordenação do Projeto Missão Amar(es) na Escola Secundária de Amares, uma iniciativa que visa proporcionar experiências de voluntariado internacional, com destaque especial em Moçambique.
Convidamos todos a conhecerem mais sobre a inspiradora trajetória e realizações de Bernardino Silva nesta entrevista exclusiva, onde partilha perspetivas valiosas sobre o seu trabalho incansável em prol de um mundo mais justo e humano.



Compreender a solidariedade e o trabalho voluntário


1. Qual é a sua definição de solidariedade e trabalho voluntário?

A minha definição de solidariedade é simples e está em sintonia com o pensamento e ação humanista da Madre Teresa de Calcutá, “não precisas de procurar muito sobre solidariedade. Saber que há gente a sofrer é quanto basta”. Posto isto, ser voluntário é estar disponível para aceitar de forma comprometida e responsável os desafios humanitários que estão permanentemente a acontecer. Quando a nossa disponibilidade se associa a causas solidárias, só temos um caminho e uma opção: ir ao encontro de quem está a sofrer.


2. Na sua opinião, quais são os principais motivos que levam os jovens a envolverem-se no trabalho voluntário?

Não sei se diria os principais, mas aqueles que a meu ver fazem com que os jovens se envolvam no voluntariado. Um deles é a curiosidade pela novidade de algo que lhes falaram e mostraram e, quem sabe, poderem experimentar um dia mais tarde. Outro motivo tem a ver com o percurso que muitos jovens realizam ao longo dos estudos, em grupos sociais e paroquiais ou no associativismo juvenil, gerando nos jovens um espírito mais humanista que se pode aprofundar consoante as oportunidades que vão encontrando para concretizar e se envolverem no trabalho voluntário.


3. Como é que a solidariedade e o voluntariado se relacionam com o desenvolvimento pessoal dos jovens?

Solidariedade e voluntariado estão intimamente interligados, logo produzem um efeito comum de sensibilizar os jovens para as causas humanitárias. Sabendo que sentem atração pelo diferente e se conseguirmos relacionar este entusiasmo com uma determinada causa, creio que estamos a contribuir para que o seu desenvolvimento integral e crescimento pessoal seja enriquecido. Obviamente que esta relação tem de estar assente em valores e princípios que norteiam a Humanidade e os direitos humanos. Importante sempre é que esta prática relacional se enquadre e faça sentido nas opções dos jovens.

4. Que impacto tem o trabalho voluntário na formação de valores e no entendimento das questões sociais dos jovens?

O trabalho voluntário, como qualquer outro, terá quase sempre um impacto importante na formação dos jovens. Importa é que os jovens conheçam o itinerário de vida que desejam construir para si mesmos, tendo consciência que fazem parte de uma casa comum que é o nosso planeta. Quando entendemos esta responsabilidade individual como uma causa comum, conseguimos dar passos importantes rumo ao grande projeto “utópico” de que um outro mundo é possível e necessário. Ao praticar o voluntariado, os jovens alcançam a verdadeira felicidade em descobertas e em experiências sociais, culturais e, até, religiosas. Mas o que cria um verdadeiro impacto na formação de valores, e excede tudo, é a satisfação profunda de dar um sentido à vida.


O desenvolvimento social dos jovens

1. De que maneira o trabalho voluntário contribui para o desenvolvimento social da comunidade?

O desenvolvimento social de uma comunidade é da responsabilidade de todos os cidadãos. Creio que o que nos move é a necessidade de contribuir para o exercício de uma cidadania mais esclarecida e responsável, tão necessária no mundo em mudança em que nos encontramos. O trabalho voluntário, nomeadamente dos jovens, contribui ainda mais para esta cidadania ativa, porque podem cooperar através do conhecimento digital e competências adquiridas para agir em prole de um desenvolvimento comunitário mais justo e sustentável.

2. Na sua opinião, quais são os benefícios que uma sociedade pode obter com a participação ativa dos jovens em projetos de solidariedade?

Em poucos anos mudamos a nossa maneira de viver e de nos organizarmos em sociedade. As transformações em curso processam-se tão vertiginosamente que se torna difícil, sobretudo aos jovens, abarcar as suas complexidades e consequências. Tentar combinar o trabalho voluntário com as demais responsabilidades não é tarefa fácil, mas tem de ser desafiante para os jovens. Se souberem compreender a mudança em curso, alcançar os seus mecanismos e fatores determinantes, saber antecipar pelo menos algumas das suas consequências mais incisivas na nossa qualidade de vida presente e na sustentabilidade de um progresso humano futuro, a participação ativa dos jovens torna-se, assim, num requisito incontornável de uma cidadania ativa e responsável através dos projetos de solidariedade. Talvez só assim, os jovens consigam beneficiar seriamente dos projetos em que se envolvem, dando-se conta da importância crescente de que se reveste uma cidadania ativa, participante e responsável do nosso futuro coletivo.

3. Quais são os desafios comuns enfrentados pelos jovens ao tentar combinar o trabalho voluntário com as suas responsabilidades pessoais e académicas?

Vivemos um tempo dominado pelo poder da ideia da autonomia individual. Vivemos num tempo de transições constantes. Diria que são estes os desafios comuns enfrentados pelos jovens que, na verdade, são as experiências incontornáveis da nossa própria vida pessoal quotidiana. A dificuldade de adaptação a novas exigências técnico-profissionais, por reestruturações setoriais ou pelo uso crescente da informática, é, no caso dos jovens, um importante fator de exclusão. É aqui que o trabalho voluntário urge e faz sentido ocorrer. As responsabilidades pessoais e académicas, ao contrário do que se possa pensar, são tarefas de todos os dias, porque ensinar e cuidar bem proclamam o valor fundamental da vida humana. Quando o trabalho voluntário combina com estas tarefas é estar a contribuir para a formação integral dos jovens, porque educar é cultivar e é transmitir. A importância dos valores na formação do jovem para o trabalho voluntário são, hoje, mais do que nunca, um enorme desafio, mas os únicos que convergem para a construção de uma Humanidade solidária.


O desenvolvimento pessoal dos jovens

1. De que forma o trabalho voluntário pode influenciar o crescimento pessoal e a autoestima dos jovens?

É inquestionável o quanto uma experiência de voluntariado pode influenciar os jovens. O importante é que os jovens tenham noção que vivemos num mundo interdependente e que não conseguimos alhear-nos dos problemas daqueles que nos rodeiam. Todos somos vulneráveis ao terror das guerras, às epidemias, à fome e aos efeitos catastróficos das mudanças climáticas. Estes efeitos nefastos são sentidos por todos e, por essa razão, muitos de nós somos influenciados a doar parte do tempo para as causas humanitárias. É aqui, a meu ver, que os jovens encontram o seu espaço e uma oportunidade para a dádiva. Esta possibilidade de dar tempo pode, por vezes, ser mais satisfatório e valioso do que se possa imaginar e pode, inclusive, influenciar o comportamento dos jovens. O trabalho voluntário, experimentado na proximidade, cria laços que são únicos na vida. Tocar corações e demonstrar como o ativismo e o serviço dos jovens podem ser um agente de mudança do mundo. Portanto, o trabalho voluntário tem o poder de mudar não só a nossa perspetiva como também o mundo, que nos oferece uma real possibilidade de nos tornarmos pessoas melhores.

2. Que habilidades, competências e experiências os jovens podem adquirir através do voluntariado?

Os jovens atualmente mostram grande sensibilidade diante das questões sociais, ambientais, da justiça, da verdade, da solidariedade, da dignidade da vida humana e no trato com os outros. Obviamente que para fazer parte de um grupo de voluntariado, os jovens sabem que precisam estar disponíveis para a formação, de feição a que possam responder a todas estas questões com acuidade. Contudo, creio que face às exigências que a sociedade impõe aos jovens torna-os, à partida, preparados para aceitar experiências que visam transformar as estruturas que se lhes apresentam injustas. Eles constituem uma força de transformação dentro da sociedade porque têm, muitas vezes, mais habilidades e competências para perceber as coisas e porque estão mais dispostos a arriscarem pelos seus ideais. É, neste sentido, que vejo o voluntariado jovem como um dos maiores legados a ter em conta nas próximas décadas e deles dependeremos em relação aos maiores temas do desenvolvimento sustentável.

O papel das instituições e da sociedade

1. Que medidas as instituições, governamentais ou não, podem tomar para promover e apoiar o envolvimento dos jovens no trabalho voluntário?

Desejo apresentar um exemplo concreto sobre o papel das instituições, nomeadamente a educativa (Escola Secundária de Amares).
Acredito que sempre que uma instituição educativa promove atividades de voluntariado, mediadas e animadas pela escola, oferece aos seus alunos a oportunidade de participar ativamente na construção de uma sociedade mais coesa e mais solidária.

Neste contexto, nasceu o projeto “MISSÃO AMAR(ES)” para os alunos do Ensino Secundário da Escola Secundária de Amares, que através de um conjunto de ações de interesse social e comunitário, realizadas de forma desinteressada pelos alunos, no âmbito de projetos sociais vários, procura incentivar o voluntariado em contexto escolar, mas também promover o agir local e o pensar global. A Educação para o Voluntariado acaba por ocupar, deste modo, um lugar ímpar na preparação integral dos alunos e ajudá-los a construir uma identidade pautada no bem comum.

Partindo das experiências realizadas e da formação adquirida ao longo do Ensino Secundário, desejamos incutir nos alunos, que participam no Clube da Solidariedade e do Voluntariado da Escola Secundária de Amares, um espírito de partilha e experiências globais, nomeadamente em contextos de países em vias de desenvolvimento e, preferencialmente, de língua portuguesa. Assim, quisemos que o projeto “MISSÃO AMAR(ES)” proporcionasse uma oportunidade aos alunos de realizarem uma experiência de voluntariado internacional.

Neste caminhar contínuo, ambicionamos continuar a oferecer a experiência de voluntariado realizada nos últimos anos em Moçambique, onde já tiveram a oportunidade de participar vinte e sete voluntários.

2. Como é que a sociedade em geral pode encorajar os jovens a tornarem-se mais solidários e ativos na comunidade?

Não preciso de muitas palavras para responder, porque só cada jovem ou cada um de nós saberá como pode “mudar o mundo” a partir da sua disponibilidade interior para se doar ao mais frágil.

3. Existem projetos ou programas específicos que considere como bons exemplos de envolvimento de jovens no trabalho voluntário?

Quase todas as Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento (ONGD) têm programas e projetos que são uma mais-valia para a experiência de trabalho voluntário. Depende depois muito das competências pessoais e profissionais de cada jovem e, sobretudo, a sua disponibilidade de tempo para assumir os compromissos necessários para cumprir os objetivos a que se propõem. Creio que começar o voluntariado nos grupos escolares, paroquiais ou em associações locais é sempre a melhor maneira de se iniciar uma experiência de proximidade.

O futuro do trabalho voluntário e da solidariedade entre os jovens

1. Como é que visualiza o futuro do voluntariado entre os jovens? Quais são os desafios e as oportunidades que se avizinham?

O Voluntariado é, hoje, um movimento que mobiliza em todo o mundo um grande número de jovens e de adultos, sendo um instrumento de participação da sociedade civil nos mais diversos domínios de atividade. Esta prática não se restringe ao campo social, mas alarga-se à cultura, à educação, à justiça, ao ambiente, ao desporto e a outras dimensões do nosso quotidiano e tem vindo a responder às questões que continuamente emergem do tecido social, económico ou político.

Conclusão:

Que mensagem gostaria de transmitir aos jovens que estão a considerar o trabalho voluntário como parte do seu desenvolvimento pessoal?

A minha mensagem e conselho é simples: sejam homens e mulheres que lutam pelo sentido orientador da vida, através do amor. Quando nos pautamos pelo amor ao outro, entendemos que somos corresponsáveis por tudo o que acontece à nossa volta, logo temos de ajustar comportamentos responsáveis para acreditar que um outro mundo é possível. Se todos formos cooperantes seremos mais felizes e melhor será o nosso viver. E quem vive bem, ama melhor.
Finalizo com o pensamento do Iraniano Ali Shariati e, a partir desta afirmação, creio que cada um de nós tem a oportunidade de mudar o mundo, “Se não podes eliminar a injustiça, pelo menos contai-a a todos”.

O blog “Mundo da Educação” expressa um profundo agradecimento a Bernardino Silva pela sua generosidade em dedicar tempo para esta entrevista e por partilhar de forma tão enriquecedora as suas valiosas experiências e conhecimentos. A sua disponibilidade e contribuição tornaram esta conversa significativa e inspiradora. Agradecemos sinceramente por partilhar insights valiosos que certamente irão iluminar e enriquecer a compreensão dos nossos leitores.

 

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